Ainda bem que hoje o que me separa de você são apenas
algumas ruas. Seria triste se fossem alguns quilômetros a mais. Se sentir
saudade da sua voz eu posso ir escutá-la ao invés de pegar o telefone e
inventar uma desculpa nem um pouco cabível pra explicar a minha ligação tão
fora de hora e se à vontade do teu cheiro e do teu toque for maior que qualquer
outro desejo eu corro rápido pra te encontrar não tendo que me importar com
hora ou transito ou muitas pessoas. É só andar, dar alguns passos e respirar
fundo pro coração não sair pela boca. Chegar e dizer: “Oi, queria saber como
você está”, com vontade de dizer: “Estou aqui sempre que precisa e até mesmo
quando não precisar e isso não têm data pra terminar”.
Mas no fundo ele sabe, claro que sabe. Eu passo um rímel que
é pros meus cílios se destacarem e um batom rosa pra transmitir casualidade pra
ver se assim me disfarço e deixo tudo nas entrelinhas. Mas ele sabe. Sabe inclusive que se pareço calma é porque
estou nervosa e se pareço nervosa... Bom, é porque realmente estou. Sabe que
não há nada nesse mundo que eu não seria capaz de fazer pra vê-lo bem e que se
me silencio é porque estou morrendo de vontade de gritar –pra fora –o que eu já
cansei de gritar pra dentro.
É realmente esse amor mal disfarçado que faz de mim um ser
intrigante. Não é difícil desvendar, acontece que você não nasceu pra isso. Ele
sim. Por isso pode estar subentendido o quanto for que ele vai bater o olho e
dizer: “Essa foi pra mim”.

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